Diário de Bordo

Talian, a língua de agricultores familiares na serra gaúcha

Relato: Thaís Seganfredo

Fotos: Desirée Ferreira

Pegamos a estrada de chão nas bordas do município de Antônio Prado pouco antes das 10h da manhã. A ideia era concluir as gravações em tempo de pegar a rodovia de volta para Porto Alegre, porque a previsão era de muita chuva para a tarde. Quem nos guiava por todo o percurso já desde o dia anterior era a professora Maria Inês Bernardi Chilanti, que se dedica há mais de 15 anos ao ensino do Talian, atualmente na escola Municipal João XXIII. Ela nos disse que também dá conteúdo sobre italiano nas aulas, porque, embora o Talian represente o Patrimônio Imaterial da imigração italiana, fora do Brasil é a variação original que conta. Com máscaras PFF2, entrevistamos várias crianças na cidade, todas roteirizadas pela professora, que aproveita os projetos culturais que estão acontecendo na pandemia para incluir os estudantes e fazê-los treinar a fala e a leitura do Talian, já que nessa pandemia de coronavírus não estão tendo aulas presenciais.

Um desses alunos é Eric, um menino que tem por volta de 13 anos e, com seu chapéu de palha, gosta de ajudar o pai nas tarefas do sítio, dar comida aos porcos e galinhas e encher o fogão à lenha. É o que ele quer seguir fazendo a vida inteira, nos disse em Talian e português. Enquanto a dona Odila, vó de Eric, nos oferecia travessas de pinhão, amendoim e batata doce, conversamos com Eric e uma colega dele, a Maria Eduarda. Os dois moram com os avós e cresceram ouvindo e falando Talian.

Mas Eric não sabia que isso seria um problema para ele na escola. Assim que entrou na sua primeira turma, um tempo atrás, ele ainda não sabia falar português, e até sofreu bullying de seus colegas por causa do Talian – algo que já ouvi muito dos mais velhos quando lembram de antigamente, mas nunca de crianças. Eric se sentiu diferente, quase quis abandonar os estudos. A professora Maria Inês o ajudou a se sentir valorizado na escola, porque falava com ele em Talian, nas aulas que ela administrava. “Os colegas ficavam admirados de ele saber falar da mesma maneira que a professora estava ensinando”, conta Maria Inês. O menino então se encontrou com sua própria identidade e viu seu cotidiano, seu dia a dia, ser valorizado como uma cultura, um conhecimento.

“Eu gosto de Talian, é minha matéria preferida na escola”, nos confessou.

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